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A Dama e Os Vagabundos
fevereiro 3rd, 2010 Postado 18:17
A Dama e os Vagabundos é uma incursão bem humorada ao universo da relação homens x mulheres. A peça remete aos encontros e desencontros amorosos, evocando alguns dos truques e sortilégios que compõem as regras (ou a ausência delas) desse jogo que todos conhecemos, mas que ninguém pode definir, exatamente, como funciona.
Delicadezas e sarcasmos, segredos confidenciados e doses de crueldade, cantadas canastras, jogos de sedução, solidão e corações partidos, são alguns dos clichês das relações amorosas, revisitados ora com o bom e velho humor, ora com o velho e bom sentimento, sem perder de vista a profundidade do tema, mesmo quando abordado com leveza.
A dramaturgia foi construída por meio de uma colagem de canções, poemas e fragmentos de cenas teatrais que versam sobre o tema. Os textos utilizados são dos mais diferentes autores e épocas. É assim que a uma cena de Romeu e Julieta seguem-se mordazes citações de Nelson Rodrigues, e uma canção de Roy Orbinson arremata um poema de Maiakovski.
Entre umas e outras, entre lágrimas contidas e sonoras risadas, a Boa Companhia propõe um brinde à paixão, ao amor, que nos mantêm, homens e mulheres, vivos e inspirados.
A ENCENAÇÃO E O TRABALHO DO ATOR
A exploração do tema ‘masculino x feminino’ é uma constante no trabalho da Boa Companhia, uma vez que a interação desses ‘opostos complementares’ – motor fundamental de nossa existência – é fonte de inesgotáveis questionamentos e descobertas sobre a natureza humana, assunto que instiga as pesquisas da companhia no campo artístico.
Apoiada na riqueza dos textos utilizados, e seguindo o estilo que a companhia vem desenvolvendo ao longo de sua história, a encenação prescinde de grandes recursos de cenário, luz e figurino para privilegiar o trabalho dos atores. Para além do trabalho de representação propriamente dito, são os atores os responsáveis pela execução da trilha sonora realizada ao vivo, cantando de tocando temas do repertório pop, apoiados em uma sólida noção de ritmo e desenho coreográfico da cena, características fundamentais do trabalho da Boa Companhia.
FICHA TÉCNICA
Elenco: Alexandre Caetano, Daves Otani, Eduardo Osorio, Moacir Ferraz e
Fabiana Fonseca.
Dramaturgia e Adaptação: Moacir Ferraz
Fotos: Tika Tiritilli
Design Gráfico: Alexandre Caetano
Concepção e Direção Geral: Moacir Ferraz e Verônica Fabrini
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Tags: A Dama e Os Vagabundos, Espetáculos Boa Companhia, Teatro Campinas
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Esperando Godot
fevereiro 3rd, 2010 Postado 18:13
Todos os dias, num local à beira de uma estrada deserta, que não é possível descrever porque não se parece com coisa nenhuma, junto de uma árvore solitária – nua e esquelética hoje, no dia seguinte coberta de folhas – dois homens, Vladimir e Estragon, esperam Godot. Mas nada acontece, ninguém chega, ninguém parte. E Godot – o único protagonista-ausente da história do teatro – que não saberemos quem é ou o que significa, nunca virá. Para preencher sua desesperada expectativa, para iludir o tédio dos dias vazios e sempre iguais, Vladimir e Estragon falam um com o outro até a exaustão, mesmo sem terem nada que dizer: assim, ao menos dão-se a impressão de existirem.
Ao longo de dois dias (dois atos) recebem a companhia de Pozzo e Lucky, um patrão e seu respectivo escravo-carregador. No 1º ato Pozzo revela toda sua crueldade no trato com seu criado, e este por sua vez, desarticula o pensamento dos demais ao pronunciar um verborrágico monólogo. No 2º ato, opressor e oprimido fazem nova companhia à Vladimir e Estragon, a não ser por um detalhe: Pozzo está cego e Lucky mudo. Um 5º personagem aparece ao fim de cada dia: um mensageiro que traz um recado do tão esperado Godot. Recado dado, o que resta a Vladimir é a companhia de Estragon. Em suma, estão de mãos atadas, atrelados à Godot, ou como o próprio Beckett diria anos mais tarde: “…o que une Vladimir e Estragon é a amizade de duas mãos, não uma verdadeira amizade. Ocorre simplesmente que um dia eles foram unidos e como duas mãos, eles retornam sempre à mesma situação; como duas mãos eles não podem se separar um do outro a não ser até um certo limite e são assim, sem verdadeiramente se apartarem um do outro, inseparáveis.”
A ENCENAÇÃO E O TRABALHO DO ATOR
A espera e o jogo
Se a espera é certa, se as respostas não virão, o melhor mesmo é “jogar” a vida, mesmo que de vez em quando paremos para refletir a respeito das perguntas sem resposta e sentir o peso da existência.
Jogo e vida. Jogar a vida. Jogo da vida ou a vida como jogo? Se a espera por respostas é o sentido da vida, enquanto esperamos, “joguemos”. Ou, se o sentido da vida está no jogo e não na espera, enquanto jogamos, esperamos. Ou, talvez, o que seja melhor: as duas possibilidades ao mesmo tempo.
Em Esperando Godot perdemos a noção da distinção entre realidade ficcional e sua ficção. Por conotação, entre vida e jogo, entre realidade e representação. E é dessa falta de noção que surge com grande força a constatação maior da obra de Beckett: a vida é assim mesmo, o jogo é esse, então…
E esse “é assim mesmo” não tem aqui uma conotação niilista, como sempre se quis da obra beckettiana. É somente uma constatação tão violenta que se chega a pensar verdadeira e, por isso, quase paralisante. Mas, na verdade, ela guarda em si um componente criativo tão violento quanto a sua constatação: a criatividade dos personagens em encontrar e vivenciar “jogos”, para que o tempo passe e a espera não se torne insuportável, é infinita, e se repetirá para sempre, todo dia, todo amanhecer, por força ou não da vontade individual.
Beckett em sua obra nos diz, a todo momento, que o fim se aproxima, que a morte espreita, que o jogo irá acabar. Mas ao mesmo tempo cria belas jogadas, jogadas patéticas, jogadas engraçadas, jogadas líricas, fazendo com que os personagens caminhem em uma linha tênue sem saber ao certo se representam ou vivenciam suas experiências. Estagnação e mobilidade, paralisia e criatividade, outras dualidades, para além das intersecções, construídas tão bem em sua obra teatral. Beckett a constrói a partir dos duplos, das dualidades através de paradoxos. Como a vida.
Esperando Godot é um clássico contemporâneo. Obra semeadora de toda produção teatral beckettiana, mas que, além disso, nasceu sob o ponto de vista estrutural de sua dramaturgia, do encontro apurado entre estrutura clássica e modernidade, que somente os grandes autores conseguem mesclar. O “novo” levando em conta o passado para não se perder apenas em tendências, mas sim, a configurar-se como linguagem estruturada para estabelecer profundo diálogo com seus interlocutores.
Como Édipo Rei, Hamlet e Fausto sempre será necessária uma montagem de Esperando Godot. Obra que se impõe, ela virá a público de um jeito ou de outro. Nessa montagem optamos por inseri-la no edifício teatral convencional, para ali instalar um espaço de representação que contém um outro espaço de representação e assim por diante, nos infinitos quadriculados de Sergio Fingermann, onde trama e realidade se confundem a espera de uma nova escolha. Se o Homem está em jogo, diariamente é dada a ele a chance de uma nova jogada.
FICHA TÉCNICA
Tradução: Christine Rörhig
Direção: Marcelo Lazzaratto
Menssageiro: Fabiana Fonseca
Estragon: Daves Otani
Vladimir: Eduardo Osorio
Pozzo: Moacir Ferraz
Lucky: Alexandre Caetano
Técnico de Luz: Marcelo Luis Santos
Técnico de Som: Silas Oliveira
Realização: Associação Cultural Boa Companhia
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Tags: Esperando Godot, Espetáculos Boa Companhia, Teatro Campinas
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Espetáculo Primus
fevereiro 3rd, 2010 Postado 17:59
Baseado no conto “Comunicado a uma Academia”, de Franz Kafka, PRIMUS busca refletir sobre o gigantesco percurso da evolução humana. Conta a história de um macaco que para garantir seu lugar ao sol, aprende a ser homem e torna-se um pop star do show business.

Questões relativas à superioridade do humano frente à natureza, os limites entre natureza e cultura, entre necessidade e liberdade, são alguns dos questionamentos trazidos pelo conto. Fechando mais o foco, a solução encontrada pelo personagem – entrar para o teatro de variedades – apresenta-se como uma ironia. Ela traz à tona as contradições próprias da profissão: o ator como um “macaco amestrado”, como um objeto de curiosidade versus a inversão de poder quando se alcança a fama. Ou ainda, a dificuldade de manter-se crítico à nossa realidade e ao mesmo tempo viver da nossa arte. Primus é a tentativa de traduzir para a cena essas inquietações, magistralmente exploradas por Kafka.
A encenação de Primus se insere no que tem sido chamado de teatro físico, uma vez que a aproximação do conto parte de uma perspectiva fortemente centrada no trabalho corporal. Há também o uso de recursos visuais de projeção de imagem (slides), do canto e da percussão ao vivo.
A base gestual tem como ponto de partida o estudo das estereotipias de primatas em cativeiro, por meio de observações no Zoológico e registros em vídeo; o trabalho vocal parte da linguagem não articulada, caminhando para a palavra, passando por canções do music-hall até chegar à alta codificação do canto lírico; e as imagens que compõem parte do cenário procuram captar as dissonâncias entre a harmonia do mundo natural versus a desarmonia do mundo civilizado. A percussão busca nos ritmos primitivos africanos e no trabalho de livre improvisação, construir climas sonoros que hora conduzem a cena, hora oferecem apenas uma sustentação rítmica para ela. A montagem busca no diálogo entre essas três linguagens transpor para a cena os temas que a Companhia considera fundamentais no conto de Kafka.
A ENCENAÇÃO E O TRABALHO DO ATOR
A encenação de PRIMUS inscreve-se no que tem sido chamado de teatro físico, uma vez que nossa aproximação do conto parte de uma perspectiva fortemente centrada no trabalho corporal. No entanto, lançamos mão também de recursos visuais de projeção de imagem (slides), do canto e da percussão ao vivo.
A base gestual tem como ponto de partida o estudo das estereotipias de primatas em cativeiro, através de observações no Zoológico de São Paulo [1].
O trabalho vocal parte da linguagem não articulada, caminhando para a palavra, as canções do music-hall até a alta codificação do canto lírico.
As imagens (slides) que compõem parte do cenário procuram captar as dissonâncias entre a harmonia do mundo natural versus a desarmonia do mundo civilizado.
A percussão busca nos ritmos primitivos africanos e no trabalho de livre improvisação, a construção de climas sonoros que hora conduzem a cena, hora oferecem apenas uma sustentação rítmica para a cena.
Buscamos no diálogo entre essas três linguagens que tecem a estrutura narrativa do espetáculo, transpor para a cena os temas que consideramos fundamentais no conto de Kafka: os limites entre natureza e cultura, o animal e o humano, a tensão entre liberdade e a necessidade.
FICHA TÉCNICA
Elenco: Alex Caetano, Daves Otani, Eduardo Osorio e Moacir Ferraz
Direção Geral: Verônica Fabrini
Preparação Corporal: Clermont Pithan
Assessoria: Célia Froufe – Sapateado
Danças Brasileiras: Eloisa Domenicci
Improvisação: Isabelle Dufau
Técnicas Circenses: Luis Monteiro Espacirco UNICAMP
Ritmos Africanos: Alex Caetano
Direção Musical: Max Costa
Slides: Coi e Eduardo Osorio
Figurino/Cenografia/Sonoplastia: Verônica Fabrini
Iluminação: Clermont Pithan e Daves Otani
Consultoria em Primatologia: M. Isabel F. de Almeida
Cenotécnico: Erick Oliveira
Texto original: “Comunicado para uma Academia” de Franz Kafka
Adaptação: Verônica Fabrini e BOA COMPANHIA
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Tags: Espetáculo Primus, Espetáculos Boa Companhia, Teatro Campinas
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